Depois de muito tempo, Marlon o escritor, volta com uma nova série. Espero que gostem. E se não gostarem... Foda-se!
Os irmãos,
o Marlon,
e a morena da praia.
Capitulo 1
O Emanoel era brabo. Bem brabo. Em qualquer discussão encolerizava-se. Devia se ter cuidado com ele. Todos sabiam disso.
Por um passado de discussões calorosas e brigas sangrentas, Emanoel mudou de atitude. Quando sentia uma faísca de raiva concentrava-se ao máximo, pensava: “Eu não posso! Eu não posso!”e, então, essa sensação passava. Passou-se um tempo e sua vida melhorou depois disso. Os amigos perderam o medo. As mulheres se aproximaram. Emanoel ficou calmo. Emanoel ficou feliz.
Isso, até o dia do jogo...
Emanoel e uns amigos marcaram de bater uma bolinha no campo da praçinha do bairro. Fazia tempo que não jogava, que não marcava seus golzinhos por lá. Era centroavante. Seu apelido dentro de campo era el loco Abreu. Sim, aquele jogador uruguaio. Esse apelido era mais pela semelhança física do que a técnica com a bola nos pés.
- Eu vou lançar todas em ti. Não pode errar! – falou Armando, armador do time, antes de entrar em campo, ao pé do ouvido de Emanoel. Emanoel sabia: não podia errar!
Armando era a experiência em pessoa, por isso era capitão. Aplaudia o time na hora certa de aplaudir. Xingava o time na hora certa de xingar. E, na hora certa, fazia o que prometia. Lançou Emanoel.
- Abreu – apontou para o lado esquerdo do campo -, vai! Emanoel foi.
Um lançamento lindo. Desses que só se vê no futebol inglês. Emanoel correu como um guepardo em busca da presa. Dominou, com classe, a bola no pé esquerdo. Só havia um zagueiro na sua frente, e o gol estaria próximo. Emanoel foi levando a bola, convicto, sabendo exatamente o que ia fazer. O zagueiro veio alto, forte, espadaúdo, com uma cara de mau que faria qualquer recém-nascido chorar compulsivamente. Nada daquilo metia medo no Emanoel, nada daquilo tirava sua atenção. Só o gol interessava. Só o gol!
O zagueiro estacou na sua frente, Emanoel pisou na bola com o pé direito. Fingiu com o corpo ir para esquerda, mas foi para a direita. Lançou a bola para si mesmo. O zagueiro, de coluna quebrada, ficou para trás. Era só Emanoel e o goleiro. Entrou na grande área, o goleiro saiu do gol, tentando ser mais rápido que o atacante. Emanoel teve um lampejo de genialidade. Chegou na bola e deu um toquezinho por cima do goleiro. Lindo. Todos estagnaram vendo a bola viajar pelo alto. A bola foi indo...
E indo... E indo...
E indo... E indo...
Pra fora! A bola foi para fora! Não, não. Mil vezes não. Emanoel cravou as mãos na cintura, baixou a cabeça, e a balançou em desaprovação do lance. Olhou para o vazio. Não acreditava no que havia acontecido. Ninguém acreditava no que havia acontecido.
- Pé de gancho! – gritou o tiozinho que assistia à partida rindo. Todos riram. Emanoel ficou abobalhado, confuso, com aquela situação. Tentou jogar normalmente. Mas quando pedia bola, ninguém passava. Mesmo sem querer, Emanoel começou a se irritar.
Num determinado momento, Emanoel apareceu livre na área, pediu bola feito um desesperado, Marlon, o outro atacante, olhou para Emanoel e... Não passou a bola! Tentou driblar e perdeu a bola. A jogada seguiu e o time do Emanoel tomou o gol.
- Eu tava livre! Era só passar – berrou Emanoel.
- O pé de gancho, dá um tempo... – respondeu Marlon. Emanoel respirou fundo uma, duas, três vezes. Pensou em ir embora. Mas assim o time ficaria desfalcado. Decidiu resistir mais um pouco. Para sua sorte, uma loira estacou na beira do campo e chamou:
- Andrio! Já ta na hora do lanche, meu filho.
- Já vô, mãe! – respondeu. O dono da bola pegou a bola, e se foi. Todos se despediram. Quando Emanoel se virou, agradecendo por ir embora, ouviu:
- Tenta arrumar uma goleira de quatro metros, pro pé de gancho, amanhã...
- Vai toma no meio do olho do seu...
Acho que não preciso mencionar esse, e os outros impropérios que Emanoel respondeu. Chegou bufando como um touro em casa. Esfriar a cabeça era a melhor saída. Tomou banho. No quarto, já calmo, vendo qualquer coisa na TV, sem saber o por quê, pensou no irmão Allan.
O telefone tocou.
- Alô?
- É o Emanoel? – interrogou a voz desconhecida.
- Sim, é ele. Quem é?
- Cara, é o Allan, teu irmão...
Capitulo 2
Já passava das 4 da madrugada, Allan parou em frente da sua escola, jogou a mochila no chão e de lá tirou sua inseparável lata de spray, olhou para os lados. Não viu ninguém. E ali, na parede da escola, pixou uma frase que achava que representava toda sua revolta contra a sociedade. Escreveu em letras garrafais, para que todos vissem e entendessem seu questionamento. Mas antes de terminar ouviu um carro se aproximando. Olhou. Era da polícia. Terminou rápido. Guardou a lata na mochila e tirou um boné. Colocou o boné, a mochila, e tentou disfarçar. A viatura parou ao seu lado. Allan tremeu.
- O moleque, o que ta fazendo uma hora dessas na rua? – questionou o policial, com a cabeça pra fora do carro.
- Nada, nada. Tô indo pra casa, senhor – respondeu Allan, de cabeça baixa.
- Tu vai ver uma coisa, pia de merda! – bravejou, com dedo em riste. O policial abriu a porta da viatura. Allan suava as catadupas. Deu a volta no carro e antes de botar a mão em Allan o outro policial gritou, de dentro do carro:
- Tem um assalto ali na Óptica São José. Deixa esse pia aí, e vamos lá!
O policial olhou nos olhos de Allan e disse:
- Tá com sorte hoje, mas na próxima tu não escapa. Ele entrou na viatura e se foi. Allan respirou fundo e agradeceu.
- Essa foi quase... – disse baixinho para si mesmo. Foi para casa, pensando no que as pessoas diriam quando vissem sua frase na manhã seguinte...
Mal entrou na sala de aula, os colegas começaram a cochichar. Allan fingia não perceber. Sentou na sua classe e esperou a aula começar. Tirou o caderno da mochila e rabiscou qualquer coisa. A diretora adentrou na sala, sem Allan notar. Os murmurinhos aumentaram. Allan continuava rabiscando. O que diabos Allan rabiscava?
- Senhor Allan – Allan levantou os olhos lentamente -, para a secretaria, já! – bravejou Dona Martha, a diretora. Allan foi em passos lentos, esperando ouvir uma advertência, algo parecido. Entretanto, não foi o que aconteceu...
- Senhor Allan, temos certeza que foi você quem pixou o muro da escola.
- É mentira! Eu nunca faria isso! Por que vocês acham que fui eu?
- Na pixação, está escrito o nome fuzer, e só o senhor usa esse nome.
- Não! Isso é uma calunia contra mim! – Allan aumentou o tom de voz.
- Calma. Nós sabemos que foi o senhor, e queremos que limpe o que fez. Só isso.
Allan olhava fixamente para Dona Martha. Suas veias pulsavam na testa.
Saltou da cadeira e gritou:
- EU NÃO VOU FAZER PORRA NENHUMA!!!
- Calma, por favor! – Dona Martha falou firme, mas de nada adiantou.
- Calma, o caralho. Filha duma p*ta!
- O senhor me desrespeitou. Vou ter que tomar uma atitude! – Dona Martha cravou as mãos na mesa.
- A senhora não gostou? Chama o Lula – Allan sorriu.
- Não. Eu acho melhor chamar a polícia. Ouviu bem, a POLÍCIA!
Allan estremeceu...
Allan correu como nunca havia corrido. A imagem que não saía da sua cabeça era a de Dona Martha gritando “polícia” e discando o 190. Imaginou-se sendo algemado e jogado, como um animal morto, dentro do camburão. Por isso, correu como nunca havia corrido na vida. Sem perceber já chegara a noite, estava solitário nas ruas escuras como um transeunte no deserto. Parou na esquina da Andradas com a Dr. Flores. Olhou para os lados, não viu ninguém. Puxou um antigo celular que tinha no bolso. Pensou em que ligar. Lembrou do Emanoel, seu irmão. Na maioria das vezes o irmão é uma boa pessoa para ligar.
Capitulo 3
Preparando suas chuteiras, com ansiedade, Otto só ficava pensando se jogaria bem, se iria fazer gols, ou então algum drible desconcertante em seu adversário. Mas, de uma coisa estava certo, que tentaria ser o melhor em campo, por causa de uma menina na arquibancada.
Vanessa era seu nome. Loira. Olhos azuis, uma boca carnuda, cabelos longos e dourados que brilhavam aos primeiros raios de sol. Seios fartos. Pernas longas... Enfim. Linda, linda, linda. Só de ouvir seu nome Otto ficava nas nuvens, quando a via, suas pernas tremiam, quando falava com ela, gaguejava. Nada mais interessava, nem o jogo, só a tal Vanessa.
O juiz chamou os jogadores. Fizeram fila indiana e entraram em campo. Otto, concentrado, não deu bola para o hino nacional. Relaxou os músculos, e quando olhou para a torcida a viu sorrindo, contente. Respirou fundo. A bola já estava no centro do campo, o juiz já ia apitar o inicio do jogo, Otto dá uma ultima olhada para Vanessa e, inesperadamente, recebe um tchauzinho cheio de carinho dela. Pronto. Isso bastava para Otto jogar tudo o que sabia, e até o que não sabia.
Apita o árbitro. Bola rolando.
Continua...
Nenhum comentário:
Postar um comentário